Archive for the ‘Social Psychology’ Category

Há dois dias elogiei a forma como Sócrates vai usando a comunicação social a respeito da presidência portuguesa da UE para conseguir vantagem sobre os seus opositores e afastar as atenções dos recentes imbróglios que o seu governo se meteu. Com o discurso do desígnio nacional, Sócrates ia conseguir afastar da agenda as questões por esclarecer a respeito da sua licenciatura e veria a questão do novo aeroporto de Lisboa cair para um segundo plano.

E digo “ia” porque Sócrates resolveu processar António Caldeira por difamação a respeito de tudo o que foi escrevendo no blog Portugal Profundo acerca da licenciatura de Sócrates. Isto poderia passar como um fait-divers, não fosse Caldeira ripostar com a intenção de processar o próprio Sócrates. Com esta situação, a questão da licenciatura do Primeiro Ministro vai continuar a ser tópico de conversa e virá mais tarde assombrar Sócrates, sobretudo se o resultado dos processos não lhe for favorável.

Afinal, ainda há coisas que Sócrates e aqueles que o aconselham têm para aprender.

Anúncios

Faço nova incursão na área política apenas para realçar que Sócrates, apesar dos abalos do caso da sua Licenciatura e os erros da Ota, continua a saber mover-se nos media bem melhor que os seus opositores. Isto a propósito da futura presidência europeia de Portugal que terá como principal tema o “tratado simplificado”.

Sócrates foi rápido em afirmar que o “mandato preciso” que foi entregue a Portugal significa uma grande responsabilidade e uma oportunidade para nos afirmarmos a nível internacional. Mais comedido, Cavaco Silva não deixou de sublinhar a importância do tratado vir a ter o nome de Tratado de Lisboa. É por isso tempo de união entre as forças políticas.

A conversa dos grande desígnios nacionais não é nova e continua a revelar-se a melhor forma de formar consenso neste país sempre nostálgico de uma grandeza que se foi e disposto a mostrar ser mais do que aquilo que todos os outros acham que é. Pessoalmente, penso que qualquer aspirante a uma carreira política em Portugal devia estudo com cuidado “A Mensagem” de Fernando Pessoa, que é uma obra que retrata com exactidão o povo português.

Afirmar a importância desta presidência portuguesa – algo que é verdade – Sócrates coloca já travões a possíveis investidas da oposição que não poderá “ir contra” os desígnios nacionais sob o risco de hipotecar os seus resultados eleitorais em 2009. Em termos práticos, significa abdicar do referendo prometido que poderia servir para fragilizar Sócrates.

O rumo está traçado por Sócrates e, a menos que haja uma resposta rápida por parte da oposição, o Governo de maioria PS terá 6 meses de pausa que poderá utilizar para recuperar crédito e garantir a reeleição. Pode parecer o contrário, mas Sócrates – e quem o aconselha – sabe muito de política.

No post Anatomia de uma Pergunta em que analiso a questão que amanhã irá a referendo, referi que a o facto de a questão poder colocar em causa as interpretações dos resultados ser uma preocupação menor. É e não é!

Passo a explicar: de facto, para os objectivos a que o referendo se presta, é uma preocupação menor porque o objectivo passa apenas por saber se ganha o “Sim” ou “Não”, e se o resultado é ou não vinculativo. Por outro lado, seja qual for o resultado não será possível perceber o que na “realidade” se passou!

Isto porque, ao apresentar uma questão com 4 ideias, nunca saberemos ao certo quantas das pessoas que votaram “Sim” que aprovam todas as ideias propostas; nem quantas das que responderem “Não”, o fizeram, não por estarem em desacordo com a despenalização, mas por serem contra alguma das restantes ideias propostas.

Seria melhor colocar uma questão mais simples!

Tag: Social Psychology technorati_logo sapotags_logo marcantes_logo destakes_logo favoritos_logo delicious_logo wordpress_logo

Avaliando a questão que amanhã será colocada aos portugueses, e sem ter em conta questões políticas e jurídicas que possam estar na base da sua formulação, não há outra forma de a classificar que não como má; pelo menos do ponto de vista de uma análise psicológica a respeito do processo cognitivo de resposta que lhe estará inerente. Não coloco em causa que será a melhor alternativa tendo em conta as condicionantes existentes; mas a verdade é que amanhã os portugueses que decidirem votar neste referendo irão responder não a uma mas a 4 questões! Senão vejamos:

“Concorda com a (1) despenalização da interrupção voluntário da gravidez, (2) quando feita até às 10 semanas, (3) por vontade da mulher, (4) num estabelecimento médico devidamente autorizado?”

Como se pode facilmente constatar, aquilo que é pedido aos respondentes é que formem um juízo acerca de 4 temas relacionados; mas que ainda assim são 4 temas e não apenas um!

A interpretação e compreensão da questão colocada é a primeira – e talvez mais importante – tarefa que uma pessoa terá de levar a cabo para a esta responder. Após este processo caberá a cada um formular um juízo de acordo com as suas atitutes e convicções e ajustá-lo às possibilidades de resposta existentes. No caso presente, é pedido que cada um realize este processo para cada uma das quatro premissas.

A existência de mais do que uma ideia numa questão é algo que deve ser evitado, com o intuito de facilitar a tarefa de resposta e também a tarefa de interpretar os resultados a essa resposta – embora aqui esta seja uma preocupação menor.

Com isto não digo que cada uma das 4 ideias expostas na questão tenha o mesmo peso na hora de decidir a resposta a dar; pode bem dar-se o caso de apenas a primeira parte, que questiona acerca da despenalização, seja relevante. Mas a existência de mais 3 ideias é mais do que suficiente para “confundir” o respondente.

A especificidade das questões deve ser sempre um objectivo, mas há sempre que colocar em causa quando esse objectivo quando possa estar a contribuir para complicar o processo de resposta, como parece ser o caso. Pessoalmente, questionaria apenas se a pessoa estaria de acordo ou não com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, deixando os pormenores específicos para decisão da Assembleia da República!

Tag: Social Psychology technorati_logo sapotags_logo marcantes_logo destakes_logo favoritos_logo delicious_logo wordpress_logo

Com o aproximar da data do referendo, mais se discute o tópico na blogosfera portuguesa. Uma das distinções interessantes no discurso resume-se à utilização da palavra “aborto” ao invés da expressão “interrupção voluntária da gravidez”. Áparte de uma maior utilização coloquial de “aborto” e de se tratar de uma expressão mais disseminada, a utilização de uma ou outra forma de se referir ao mesmo tópico indicia – ainda que de forma indirecta e enviesada, entenda-se – uma possível tendência de abordagem ao tema. Pela “força de impacto” de cada uma das expressões, e analisando um pouco as campanhas realizadas até ao momento, é provável – embora não seja certo – que “aborto” seja mais utilizada pelos defensores do Não, enquanto do lado do Sim a primazia será da “interrupção voluntária da gravidez”. Penso que o mesmo raciocíonio poderá ser feito em relação à escolha entre a utilização de “liberalização” ou “despenalização”, sendo esta última mais próxima da retórica do Sim e a primeira da do Não*.

Tendo em conta esta linha divisória, os dados apresentados abaixo demonstram que as expressões mais na linha do Não têm primazia na blogosfera portuguesa – obviamente que tal não deve de modo algum ser interpretado como intenção de voto, mas que pode ser indicador de um maior domínio no discurso pelos defensores do Não, facto que pode vir a ser relevante no desfecho de referendo. É interessante verificar também que a evolução dos pares de expressões é similar, demonstrando que não se trata de uma questão de desadequação de um expressão em relação à outra.

aborto

 aborto2

*Não disponho de dados concretos que me indiquem a preferência de um lado ou outro pelas expressões analisadas. Limitei-me a tentar perceber tendências no discurso de cada um dos lados através das minhas leituras, facto que pode evidentemente enviesar as interpretações.

Tag: Blogs technorati_logo sapotags_logo marcantes_logo destakes_logo favoritos_logo delicious_logo wordpress_logo

prendaPara além das habituais decorações, a época de Natal faz aparecer nos estabelecimentos – sobretudo no ramo da alimentação mas não só – a caixa de gorjetas de Natal. O princípio é simples: embrulha-se uma banal caixa, faz-se uma ranhura na mesma, coloca-se ao lado um cartão de Boas Festas, e espera-se que a época festiva produza uma maior dose de generosidade nos clientes. Faz-se um simples apelo à reciprocidade, em que se procura fazer ver aos clientes que se os funcionários tiveram todo a ano a servi-lo, é agora hora de ser ele a dar algo em troca – de preferência num valor superior ao das gorjetas habituais.

Um plano simples e não intrusivo que tem no entanto uma falha: o embrulho! Compreende-se facilmente a analogia de querer fazer passar a gorjeta como uma prenda de Natal, mas já se indagaram do porquê das caixas de donativos que podemos encontrar em vários centros comerciais por essa país fora serem transparentes? A resposta é simples: para criar uma norma, mostrando aos indivíduos que os outros deram algo!

Quando numa situação ambígua as pessoas procuram pistas no comportamento dos outros no sentido de inferir qual a forma correcta de proceder na situação. Aquilo que o sujeito procura é validar o seu comportamento através da observação ou inferição do comportamento dos outros. Quanto maior e mais forte for a evidência de que a “norma” é a de doar algo – o que pode ser conseguido pelo facto de observar alguém a doar, ou inferido pela quantidade de dinheiro existente na caixa (daí a sua transparência) – maior será a probabilidade do indivíduo assumir esse comportamento.

Aquilo que os funcionários dos estabelecimentos que colocam essa caixa de gorjetas deveriam fazer era o de subsituirem o embrulho por uma caixa transparente, e já agora colocarem eles mesmos algumas “gorjetas” não era mal pensado.

Tag: Social Psychology technorati_logo sapotags_logo marcantes_logo destakes_logo favoritos_logo delicious_logo wordpress_logo

Um estudo da Universidade de Munique revelou que o branding continua a ser fundamental, já que o cérebro responde de forma mais rápida a estímulos (ex. logos) de marcas populares comparativamente a estímulos de marcas menos conhecidas. Na verdade este estudo só vem dar uma “validação neuronal” a um facto há muito adquirido da Psicologia Social a respeito da acessibilidade das atitudes das pessoas perante objectos sociais (que podem ser marcas, pessoas, conceitos, etc.).

A hipótese da mera exposição advoga que quanto mais vezes formos expostos a um estímulo, mais tendemos a gostar deste (existe obviamente um limiar a partir do qual a exposição pode ter o efeito contrário) e mais fortes e acessíveis se tornam as nossas atitudes perante esse estímulo. Aquilo que este estudo vem demonstrar é que as atitudes perante marcas populares são mais acessíveis, logo mais fácil e rapidamente activadas do ponto de vista neuronal.

Aquilo que ainda não é capaz de fazer é definir qual a polaridade (positiva vs negativa) da atitude, o que é uma limitação importante na medida em que, por muito interessante e útil seja saber que uma dada marca se encontra saliente e desperta atitudes fortes nas pessoas, essa é uma informação “coxa” já que não nos permite saber se a atitude despertada é boa ou má o que por si impede actuar sobre a situação.

Os métodos de análise que recorrem a índices fisiológicos – como a electroencefolagrafia, a electromiografia, ou a resposta galvânica da pele – têm a si associados maiores índices de fiabilidade, mas continuam a ser demasiado dispendiosos e a fornecer apenas parte da informação necessária. Em termos de eficiência ainda estão demasiado longe para se tornarem uma prática comum!

Tags: Market Research technorati_logo sapotags_logo marcantes_logo destakes_logo favoritos_logo delicious_logo wordpress_logo