Os Blogs e a Long Tail

A questão do “tamanho” e “influência” da blogosfera lançou uma interessante, e por vezes exaltada, discussão neste nosso cantinho lusitano – se bem que quando falo em gerou uma discussão restrinjo o universo da mesma a uns quantos bloggers que seguem estas tendências, já que, tanto quanto me parece os restantes blogs a ela ficaram indiferentes ou quase.

Coube a João Pedro Pereira, seguido de Paulo Querido, iniciarem as lides prontamente contrapostos por Carlos Andrade. Para quem não sabe do que se fala, recomendo a leitura do “State of the Blogosphere” de David Sifry (de que já falei aqui) e do posto “More Blogs, Less Weight” Nicholas Carr expõe o seu ponto de vista. No post do João Pedro Pereira deixa algumas impressões, que não estarei aqui a recordar mas que irei desenvolver.


1) A análise efectuada por Carr apresenta uma tendência clara (que em nada me surpreende), mas que tem de ter em conta – algo que não é feito – o facto de os dados não serem totalmente comparáveis devido à mudança do algoritmo Technorati. Um outro problema encontra-se no facto de usar-se o modelo Technorati de Inbound Links, é que estamos perante uma relação quase unidireccional já que os blogs linkam para os Mainstream Media (MSM) quando o resto quase nunca acontece; se a isso somarmos o facto de os MSM serem mais abrangentes nos temas – logo maior número de probabilidade de serem linkados – não será de admirar que a diferença se vá acumulando;

2) A tendência apresentada não me surpreende porque encontra-se de acordo com a teoria da Long Tail, sendo que sempre entendi que o espaço dos blogs seria sempre o de fornecer informação, opinião, discussão para nichos cada vez mais específicos e não para a generalidade da população. O papel dos MSM é o de fornecer informação em quantidade, muitas vezes sacrificando a qualidade; para os blogs restará o “trabalho” de aprofundar, especificar e tornar “local” essa informação de acordo com o público a que se destina. Nem tudo são rosas nos blogs – nacionais e internacionais – como bem explica José Pacheco Pereira, mas fazendo uma divisão bruta e possivelmente injusta em alguns casos, para os MSM fica a quantidade para os blogs a qualidade – faço a ressalva que existem coisas boas e más de parte a parte, mas a minha análise (com toda a subjectividade a ela inerente) é a de que a qualidade da blogosfera é superior; obviamente que a tal não será alheia a maior liberdade dos bloggers em termos editorias e de pressões temporais.

3) João Pedro Pereira considera a palavra Blogosfera como enganadora na medida em que:

agrupa, como se de um único conjunto se tratasse, realidades absolutamente distintas. Mete no mesmo saco o blogue de um conceituado jornalista integrado no site do órgão para o qual trabalha (portanto, uma forma nova de coluna online), o blogue pessoal de um adolescente cujas visitas são apenas dos amigos, e o blogue de um opinion maker que frequentemente dispõe de tempo de antena também nos media tradicionais.

Pedindo desculpa ao João, isso seria o mesmo que dizer que a Biosfera é uma palavra enganadora porque agrupa plantas, seres humanos e répteis quando se tratam de coisas distintas. Tanto uma como outra são palavras que agrupam constituintes similares, mesmo tendo em conta a existência de distinções entre estes. Existem claras distinções a fazer entre blogs – seja em termos de assunto, seja em termos de reputação – mas isso em nada tem a ver com a utilização da palavra blogosfera para definir o conjunto de todos os blogs.

4) Concordo que de facto, os blogs não só permitiram ao “indivíduo comum” ter acesso a um espaço próprio de divulgação, como deram a jornalistas, opinion makers e outro tipo de profissionais que já tinham de certa forma acesso aos MSM, um novo modo de passar as suas mensagens, e que são estes aqueles que têm maior notoriedade.

5) Falando agora de influência, começo por afirmar que DE MODO ALGUM se pode assumir os dados Technorati como um indicador de influência; os Inbound Links dão uma noção de popularidade e de validação social que “ajudam” ao estabelecimento de influência, mas não a indicam precisamente. Quando falamos de influência temos de ter em conta um factor muitas vezes negligenciado: o tema! Dando um exemplo à bruta: José Mourinho será certamente um dos mais influentes quando o tema é futebol, se passar a falar de física nuclear a sua influência será menor (mas nunca será zero, já que há outras características para além da expertise e reputação no assunto que entram em jogo).

6) Continuando com o tema da influência, os MSM terão certamente maior potencial de difusão, o que poderá levar a um maior potencial de influência, não propriamente a maior influência – até porque atentando ao Thrust Baromether (link em baixo) de 2006 da Edelman, os Media não são vistos como sendo muito confiáveis. Mas há aqui uma questão que importa medir, que é a influência dos bloggers sobre os MSM. Cada vez mais notícias saltam da blogosfera para os MSM, o que se por um lado denota influência dos bloggers na capacidade de “sugerir” e apontar notícias, é também demonstrativo de uma influência indirecta de um blogger sobre um leitor via MSM.

Isto tudo somado dá apenas que nem os blogs serão substitutos dos MSM, nem estes acabarão por assimilar os primeiros. Haverá espaço para ambos e o importante é que se encontrem formas de cooperação activa com cada a um a saber exactamente qual o seu lugar em relação ao público que serve.

Tag: Blogs technorati_logo sapotags_logo marcantes_logo destakes_logo favoritos_logo delicious_logo wordpress_logo


  1. Não podia estar mais de acordo.

    Apesar de no meu ponto de vista estarem em jogo factores diferentes, o resultado é basicamente o mesmo.

    Uma das questões em jogo, é que o público em geral ainda está fora do círculo. Não captam toda a dinâmica dos blogs ou mesmo dos outros media.

    Eu sinto isso pelo número de vezes em que me questionam sobre a diferença entre um blog e um website.

  2. Não é preciso pedir desculpa para discordar😉

    Mais a sério: quanto à questão do peso e influência da blogosfera, fiz já toda a minha argumentação no meu blogue.

    Deixo apenas duas notas: uma reflexão semântica relacionada com a palavra blogosfera e uma curta resposta ao comentário de Bruno Amaral.

    1) A palavra blogosfera é muitas vezes usada como sinónimo de movimento grassroots. Em inúmeras ocasiões, blogosfera é tida como um espaço de publicação fora do mainstream. Não falta quem pense na blogosfera como termo que abarca a tendência para a proliferação da expressão pessoal na Web.

    O problema é que, usando estas concepções, ficar-se-ia sem palavra para designar a totalidade dos blogues.

    Ou seja, muitas vezes a palavra que designa o todo é usada como significante apenas da parte: por blogosfera entende-se a citizen blogosphere que, à falta de melhor, é um termo que me parece mais preciso.

    O significado de blogosfera cinge-se às questões técnicas da estrutura de publicação. A palavra, por si, isolada de qualificativos, não pode ser usada para designar qualquer outra coisa.

    Ou então, assume-se a ambiguidade do termo e o significado passa a estar dependente do cotexto (não é gralha).

    2) Um blogue é sempre um website. Mais precisamente, um tipo de site.

  1. 1 Da Blogosfera « PubADdict

    […] Interessante relacionar com o que aqui se diz… […]




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