Arquivo de Maio, 2006

Explicação

De momento tem-me sido complicado acrescentar valor extra ao blog para além do Clipping. Tenho uma série de posts alinhavados à espera de melhores dias para saírem. Lá para o final da semana as coisas deverão estar mais desanuviadas.

Clipping 29.05.06

Why the Democratic Ethic of the World Wide Web May Be About to End – Adam Cohen in New York Times (registo gratuito necessário)

Blogging Liberates 'Web 2.0' – Sara Ivry in International Herald Tribune

Clipping 26.05.06

Tell Me What I'm Thinking – Jim Lenskold in Marketing Profs Daily Fix

A 'More Revolutionary' Web – Victoria Shannon in International Herald Tribune

Passando agora a discutir aspectos metodológicos do estudo em questão. Antes de mais quero esclarecer que baseio-me apenas no que se encontra transcrito no artigo do JN, o que pode originar críticas injustas para com os autores. Se esse for o caso as minhas desculpas aos mesmos.

Critico desde logo o tipo de escalas utilizadas, que me parecem ser do tipo dicotómico. As atitudes não se medem em 'Sim' e 'Não', as pessoas não encaram o mundo a preto e branco mas em escala de cinzentos. As perguntas dicotómicas deveriam ter sido utilizadas apenas como filtros, aos quais se seguiriam as questões atitudinais utilizando-se para tal escalas de concordância com afirmações relacionadas com o tópico em questão. Do mesmo modo, medir as atitudes das pessoas baseando-se numa única questão é sujeitar-se a um elevado enviesamento e descurar aspectos mais profundos e, por vezes, mais interessantes.

A própria questão sobre se a praxe 'deve repudiar qualquer forma de violência física ou simbólica', não é bem formulada pois é demasiado geral para permitir qualquer tipo de conclusão satisfatória. É uma questão que apresenta demasiada ambiguidade: o que é violência física ou simbólica? Como se manifesta em praxe? Podem parecer questões estranhas, mas quem lida com atitudes e as tem de medir sabe, ou devia saber, que nem sempre o significado atribuído a certas expressões é similar a todos os indivíduos. A especificidade do comportamento em causa deveria ter sido privilegiada, atribuindo um maior valor discriminatório às questões desenvolvidas.

Por falar em discriminação, a questão relativa à discriminação sexual no Código de Praxe de Coimbra é, também ela, demasiado geral já que se refere a inúmeros artigos. Isto leva a que não se perceba quais os artigos mais valorizados pelos respondentes; algo que seria importante já que alguns desses artigos têm como função impedir abusos de índole sexual sobre as mulheres, que certamente não seria do agrado da generalidade das pessoas serem abolidos do Código Praxístico.

As questões sobre a abolição de praxe e adesão à mesma são também erróneas já que se tratam de duas questões e não de uma. Quando se pergunta se a praxe deve ser facultativa e se se deve respeitar quem decide não aderir numa só questão, estão-se a colocar duas questões numa só: por um lado os respondentes têm de decidir se consideram ou não que a praxe deva ser facultativa; por outro têm de considerar se é importante respeitar aqueles que resolvem não aderir à praxe. No final têm de calcular o peso relativo de cada uma das dimensões e atribuir uma resposta que, presumivelmente, surge na forma de 'Sim' ou 'Não'. O mesmo sucedo na questão acerca da abolição onde também se afirma que a Praxe é uma violência. Pode haver quem considera que a Praxe é uma violência, mas que não defenda a sua abolição; e vice-versa. Mais uma vez perde-se potencia discriminatória das questões.

Repito o aviso de que faço estas críticas em função do li e não de um estudo aprofundado do trabalho em questão. De qualquer forma, a reflexão efectuada poderá ainda assim ser de utilidade.


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A respeito deste artigo, onde é citado um estudo de Elísio Estanque e Rui Bebiano, gerou-se alguma celeuma contra a Praxe Académica pela blogosfera nacional (pelo menos na que eu leio diariamente) com destaque para o Blasfémias e para A Origem das Espécies de Francisco José Viegas. As opiniões expressas em ambos, e nas caixas de comentários, não são do interesse deste post; embora esteja profundamente em desacordo com as mesmas e um pouco desapontado pela 'superioridade moral' apresentada em alguns casos (Disclaimer: sou a favor da Praxe; fui praxado e praxo na faculdade que frequento [FPCEUP]; sou contra qualquer tipo de violência em Prax; e acredito que se trata de um ritual de integração e companheirismo onde se travam grandes amizades, pelo menos comigo assim se passa).

O centro deste post é a 'iliteracia' selectiva (não extrapolem daqui qualquer tipo de insulto) que por aí anda, a começar pelo foco do próprio artigo. Ora é dito que quase um terço dos estudantes de Coimbra são a favor de 'praxe violenta'; isto é o mesmo que em relação às últimas presidenciais dizer que quase 50% dos portugueses não votou em Cavaco Silva, e fazer disso o tema de conversa! Se quase um terço é a favor, significa que dois terços são contra, ou seja a maioria. Obviamente que isto não quer dizer que não se deva ter em atenção o terço que se mostra favorável às práticas; importa saber quem são e o porque são a favor.

Um mesmo raciocínio pode ser feito relativamente ao facto de 29,6% utilizarem automóvel pessoal (que pelos vistos é um crime para estudantes universitários). Este foi já um argumento usado de forma perversa para justificar o aumento das propinas (quando se podiam usar outros bem mais justos), esquecendo os 70% que não possuem automóvel pessoal. Uma vez mais coloca-se o foco na minoria para 'atacar' o todo. Outra forma de selectividade que se vai disseminando é o da generalização abusiva destes resultados: de uma amostra representativa de estudantes da Universidade de Coimbra, extrapola-se para o universo de estudantes universitário portugueses; embora também aqui haja quem exclua da extrapolação os estudantes universitários aqueles que não aderiram à Praxe!

Por muito que dê jeito aos nossos argumentos aproveitar apenas parte dos dados, o ético é fazer um relato da sua totalidade; algo que manifestamente não foi feito neste caso por muito boa gente!

De seguida falarei de algumas falhas metodológicas que o artigo do JN deixa a entender.


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Clipping 24.05.06

A jornalista e o "especialista": estudo de caso – Pedro Magalhães in Margens de Erro

"Tell Me Off for $2!" – William Arruda in MarketingProfs: Daily Fix

"Intimate" versus "Incidental" Word-of-Mouth – Pete Blackshaw in Consumer Generated Media

Como quem anunciava a boa nova ao Mundo, António Vitorino, no programa 'Notas Soltas' de hoje, descrevia a forma como a campanha de reeleição de Clinton havia sido conduzida dando especial ênfase ao uso de focus groups na procura de compreender o impacto que as mensagens que o candidato lançava ia tendo nos diversos sectores da população. O ex-ministros socialista afirmava que esse seria o futuro das campanhas políticas portuguesas. Esqueceu-se foi de enfatizar que esse 'futuro' representa apenas um ganho no atraso que levamos!

Antes de mais há que realçar que a forma como as campanhas dos políticos americanos são encaradas tem a ver com uma necessidade de 'sobrevivência'. Os Estados Unidos, como o nome indica e nos tendemos a esquecer, são uma Federação de Estados que partilham entre si uma nacionalidade, uma língua (cada vez menos) mas pouco mais. Culturalmente cada Estado tem a sua identidade, tem os seus valores e a sua ideologia; não se pode comparar um eleitar texano com um proveniente do Utah!

Este pluralismo obriga a que um candidato, para ter sucesso, se saiba moldar de acordo com o público do momento; mesmo quando comunica para a Nação, sabe que há conteúdos da mensagem distintos e que procuram atingir segmentos diferentes, e por vezes opostos, da população. Um político americano é sobretudo – mas não só! – um produto de marketing que a sua equipa procura vender ao maior número de eleitores. Recorre a sondagens e estudos de mercado faz parte do 'american way of life' e representa um importante indicador de desenvolvimento civilizacional: o querer e saber escutar a voz do eleitor/consumidor!

A indústria do marketing percebeu isso antes de todos, mas a política não demorou muito a acompanhar as novas tendências (isto há mais de 40 anos!). Nós por cá é que nos mantemos fechados no nosso autismo retrógada!


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